terça-feira, 24 de julho de 2012

The Smiths - Meat Is Murder (1985)

Há algum tempo me vejo preocupada com minhas habilidades literárias. Ultimamente, quando eu sento pra compôr, pra escrever um monograma, uma sinopse, um release, uma carta ou até mesmo um email, eu me sinto bloqueada por alguma "força analfabetista". E essa preocupação me fez tomar a decisão de que eu deveria praticar.
Tomado o raciocínio de que a prática estimula o desempenho, escolhi como opção retomar minha condição de blogueira. Mas eu não queria continuar naquele esquema umbiguista de desabafo de amarguras e emoções anacrônicas, eu precisava de algo específico. Precisava de algo que fosse uma verdadeira paixão.
Nada fica tão claro em minha mente, quando se fala em paixão, quanto MÚSICA. E foi então que eu tive esse insight.
A partir de hoje [e espero realmente conseguir manter uma frequência], eu escreverei sobre discos que mudaram minhas perspectivas, ampliaram meus horizontes, me proporcionaram sabores e sensações que, de alguma forma, me transformaram no que eu sou até então. Se é pra contribuir com o jornalismo egocêntrico, que seja assim. Espero que absorvam o melhor de cada um deles.


Eu não poderia, de forma alguma, começar essa sequência de posts com outro disco senão este, que sem dúvida alguma, é o disco mais importante da minha vida:  



Quem me conhece sabe o quão fascinada eu sou por esta banda, que me influencia direta e indiretamente em quase tudo o que eu faço; como na escolha do nome deste blog, por exemplo: "but dont forget the songs that made you cry and the songs that saved your life/mas não se esqueça das canções que te fizeram chorar e das canções que salvaram sua vida..." - trecho da música Rubber Ring [que não está no disco deste post].  Quando eu ouvi uma música do The Smiths pela primeira vez, eu devia ter uns 7 ou 8 anos de idade, aquela sensação de que essa banda dizia coisas que eu PRECISAVA entender tomou conta de mim por um bom tempo. Eu não sabia do que se tratava, mas eu estava certa. A sensação ainda é a mesma até os dias de hoje. Quando eu comprei o Meat is Murder, eu devia ter uns 11 ou 12 anos de idade. Comprei a versão original [a da foto acima] e não conseguia me prender a mais nada. Eu carregava aquele encarte duplo pra cada canto da casa, como se  eu fosse o Linus, do Peanuts, e aquele fosse o meu cobertor. Cada palavra do Mozz tomava uma proporção exacerbada na minha pré-adolescência. Me tornei vegetariana, me tornei anti-autoritarista, anti-sistema e anti-social.




Dissecando o álbum:

Faixa 01 - The Headmaster Ritual : Um Morrissey que deixa claro sua repugnância pelo sistema educacional e militar britânico. Mas quando se é uma pré-adolescente, sua casa é a sua Inglaterra, a sua Europa, a sua Terra. Meu pai, provavelmente, não ficou muito satisfeito com a forma em que eu passei a encarar hierarquias e ditaduras. E muito do que eu penso a respeito de ensino massificado, hoje em dia, começou ali: "Give up education as a bad mistake/Desista da educação como um grave erro" . 

Faixa 02 - Rusholme Ruffians: Logo de cara, fica o registro de que a linha de baixo que o Andy Rourke criou pra essa música me hipnotizou. Uma levadinha country/rockabilly, eu me sentia num western protagonizado pelo Elvis Presley [de quem eles assumiram tirar inspiração].  E eu comprei um baixo logo depois, porque eu queria ser como o Andy. Obviamente, não fui. Nem nunca consegui tocar essa música. Ou qualquer outra deles. Enfim... quando se está na fase de transição criança/adulto, tudo é muito contraditório [não que na fase adulta não continue sendo, whatever]. Ainda que demonstre uma grande insatisfação com relacionamentos,  uma inocente esperança no amor e na vida fica evidente em frases como: "I might walk home alone but my faith in love is still devout/Eu posso voltar pra casa sozinho mas minha fé no amor ainda é fervorosa". 


Faixa 03 - I Want The One I Can't Have:  No auge do meu culto ao platonismo [porque eu sou dessas, desde sempre], essa trilha embalou muitos momentos de choro e amargura por não ser correspondida pelo ser amado. Nessa música, apesar do Johnny Marr prender a atenção com seus lindos acordes dedilhados, eu gosto de saborear a ginga do fofíssimo Mike Joyce que, cá entre nós, nunca foi lá um exímio baterista. Mas ele sempre deu conta do recado. E sempre me deixou animada.


Faixa 04 - What She Said: Eu costumo dizer que o Morrissey escreveu essa letra pra mim. A crescente depressão por não ser como a maioria das pessoas, a dificuldade de aceitação tanto social quanto pessoal, fazia com que o fascínio pela idéia da morte se intensificasse. E uma das minhas válvuas de escape nessa fase de transição acabou sendo o cigarro: "I smoke 'cause I'm hoping for an early death and I need to cling to something/Eu fumo porque estou esperando morrer logo e preciso me apegar a alguma coisa". E sempre me foi muito curioso o fato de letras e músicas tão depressivas despertarem em mim o entusiasmo pela vida. 


Faixa 05 - That Joke Isn't Funny Anymore: A balada. Eu diria que, hoje em dia, poderia ser considerada uma ODE AO BULLYING. A melodia melancólica e a letra grave se encaixam perfeitamente na insatisfação e na dor de quem se sente inferiorizado. E eu tive que tatuar o nome dessa música, para sempre me lembrar que "I just might die with a smile on my face after all/Eu poderia morrer com um sorriso no rosto apesar de tudo".


Faixa 06 - Nowhere Fast: A mesma atmosfera contraditória da minha vida: aquela vontade enorme que temos de fazer alguma coisa e, de alguma forma, acabamos por não fazer. Essa música sempre me fez pensar sobre o que eu queria/gostava na vida e o que e por quê as pessoas me impediam de torná-las reais. E o porquê de eu, de um jeito ou de outro, acabar aceitando isso. E eu perdia o interesse: "When I'm laying in my bad I think about life and I thing about death and neither one particularly appeals to me/Quando estou deitado na minha cama eu penso sobre a vida e sobre a morte e nenhuma delas particularmente me atrai". E devo ressaltar que, a cozinha Marr/Rourke/Joyce é especialmente incrível aqui.


Faixa 07 - Well I Wonder: O auge do desespero, da carência, da necessidade de se fazer notado. Eu já chorei muito embalada por essa trilha. Eu já quis muito morrer embalada por essa trilha. Mas quando o Mozz canta "Please keep me in mind" , o Andy Rourke e o Mike Joyce me fazem balançar os quadris e eu fico contente. E o barulhinho da chuva também. Eu amo barulho de chuva!


Faixa 08 - Barbarism Begins At Home: Eis mais uma das faixas que fizeram o descontentamento dos meus pais. Mas minha rebeldia foi bastante contida, apenas aprimorei a arte do "retrucamento". Andy Rourke e o solo de baixo no final da música, COMO FAZ? Até hoje eu ainda faço o mesmo passinho de dança 'dois pra lá, dois pra cá, bate palminha' ouvindo isso. É incrível e apaixonante. 


Faixa 09 - Meat is Murder: Se você não deixa escorrer uma lágrima que seja ao ouvir essa música, sua sensibilidade é questionável. Na primeira frase da música: "Heifer whines could be human cries/Gemido do bezerro podia ser choro humano" eu já tou com um nó na garganta. Sonoplastia desgraçada com mugidos e afins que me dão aperto no coração e fizeram dos meus quatro anos seguintes uma vegana bem chatinha. Depois que eu abandonei esse estilo de vida, eu não consegui mais ouvir essa música. E quando eu a ouvi no show do Morrissey, com um telão apelativo, eu não tive coragem de manter o contato visual. Eu me agarrei à perna do meu amigo e  chorei um bocado. "It's not "natural", "normal" or kind the flesh you so fancifully fry; the meat in your mouth as you savour the flavour of murder/Não é natural, normal ou coisa do tipo a carne que você frita magicamente; a carne na sua boca é você desgustando o sabor do assassinato". Pesado.


Esse álbum tem duas versões. Na versão posterior, com a capa abaixo, foi inclusa uma outra faixa, How Soon is Now?, que a maioria das pessoas deve conhecer e eu me abstenho de comentar.




Esse é um álbum politizado, crítico e que expõe nitidamente os pontos de vistas da banda, sem deixar a poética, a sensibilidade e o bom humor se perderem. Esse é o disco da minha vida, da banda da minha vida.


3 comentários:

  1. Sua revoltada que foi reprimida e continuou revoltada! haahahah (L)

    ResponderExcluir
  2. Gostei! Agora proponho uma resenha do disco Synchronicity, do The Police, pra fechar o binômio das duas únicas bandas não-metal não-outrasdécadas realmente relevantes para a música dos anos 80.

    ResponderExcluir
  3. "realmente relevantes..." assim fica difícil não me ganhar...

    ResponderExcluir