sexta-feira, 3 de agosto de 2012

The Cranberries - No Need To Argue (1994)

Não quero que pareça que estou, de alguma forma, tendenciando uma preferência pelas bandas da Irlanda, mas não poderia escolher outro disco pra esse próximo post.
O primeiro contato que tive com Cranberries foi com o primeiro disco, "Everybody Else Is Doing It, So why Can't We?", cujo nome me impressionou tanto quanto a música How, que até hoje é uma das que eu mais gosto deles. E é um disco que eu recomendo demais.  Provavelmente falarei dele aqui ainda.
Mas quando eu ouvi essa belezinha aqui:


eu fui tomada por um sentimento que, até os dias de hoje, me causa as mais intensas sensações.
Eu passei um mês inteiro fazendo trabalhos escolares na casa de uma amiga onde só ouvíamos dois discos: o Mellon Collie And The Infinite Sadness, do Smashing Pumpkins (que eu espero ter oportunidade de comentar posteriormente), e este em questão. São dois discos bem especiais, que me remetem à uma fase bem especial da minha vida. Pensando bem, acho que ouvíamos The Cure também, mas isso não vem ao caso.

Curiosidade: até os dias de hoje, casualmente me tranco no banheiro para tomar banho, no escuro, ouvindo esse disco. Recomendo a experiência.




Dissecando o álbum:

Faixa 01 - Ode To My Family:  O assunto 'família' sempre foi muito delicado pra mim, mesmo quando eu ainda me via como membro de uma. E uma letra que retrata o saudosismo de ser criança, de um ambiente familiar, me deixa um pouco reflexiva. De certa forma, com o passar dos anos, cada vez que eu a ouço atualmente, me traz uma sensação diferente, talvez um pouco amarga. Eu fico sentimental, melancólica. Mas isso é comigo, óbvio. É uma deliciosa melodia para se ouvir em dias de saudosismo.


Faixa 02 - I Can't Be With You: Pé na bunda e saudade do namoro... quem nunca? "Thinking back on how things were and how we loved so well, I wanted to be the mother of your child and now it's just farewell/Pensando em como as coisas eram e como nós nos amávamos tão bem, eu queria ser a mãe do seu filho e agora é só adeus...". Dolores O'Riordan e suas intensas canções de amor, ai ai... e essa é a música mais animadinha desse disco, dá pra sofrer dançandinho!


Faixa 03 - Twenty One: Durante muito tempo eu achei que quando eu tivesse 21 anos, teria as melhores experiências da minha vida, seria a minha melhor época. E acabou sendo. Ou eu acabei achando que foi, sei lá... tudo por causa dessa música. Talvez pela frase "Leave me alone 'cause I found it all/Me deixe sozinha porque eu descobri tudo" e a idéia de que aos 21 eu já saberia o suficiente da vida pra ter o controle do futuro. Tolice adolescente, tsc. Mas a baladinha é apaixonante.


Faixa 04 - Zombie: Todo mundo conhece esta, certo? Maior hit do cd, maior hit da banda! Música de protesto anti-guerra, especificamente sobre a morte de crianças: "Another mother's breaking, heart is taking over when the violence causes silence/Outra mãe está desmoronando, seu coração é tomado quando a violência causa silêncio". Faz pensar e faz sentir. Dolores tem uma maneira bem poética de tratar assunto fortes o que, somado às características "melosas" da banda, acaba por amenizar um pouco o impacto analítico dos temas. Principalmente se você não fala inglês e não se dá ao trabalho de se aprofundar nas letras.


Faixa 05 - Empty: Uma das minhas preferidas. Quando tem violino, eu piro! E eu adoro o tom da voz da Dolores, esse 'agudo gralha' que só ela tem e eu amo. E é uma das minhas percurssões favoritas do Fergal Lawler, que eu considero um baterista bastante sensível. E tem a identificação pessoal, né? "All my dreams it suddenly seems empty/Todos os meus sonhos de repente parecem vazios". Sem mais.


Faixa 06 - Everything I Said: Sem dúvidas, uma das minhas letras preferidas. Dificilmente alguma outra tem algo tão intenso pra mim quanto: "'Cos if I died tonight would you hold my hand? No! Would you understand? And if I lived in spite would you still be here? Not! Would you disappear/Porque se eu morresse essa noite será que você seguraria minha mão? Não! Será que você entenderia? E se eu vivesse aqui dentro será que você continuaria aqui? Não! Você desapareceria?". É uma música bem tensa. E eu amo músicas tensas.


Faixa 07 - The Icicle Melts: Mais crítica: "I should not have read the paper today cause a child, he was taken away; there's a place for the baby that died and there's a time for the mother who cried; and she will hold him in her arms sometime cause nine months is too long/Eu não devia ter lido os jornais hoje, porque uma criança foi levada embora; há um lugar para o bebê que morreu e há um tempo para a mãe que chorou; e ela o segurará em seus braços algum dia porque nove meses é muito tempo". Como a Dolores estava grávida durante o processo de composição (o disco foi lançado em Outubro e seu primeiro filho, Taylor, nasceu em Novembro), a sensibilidade materna dela devia estar mais aflorada que o resto: "How could you hurt a child?/Como você pode machucar uma criança?".




Faixa 08 - Disappointment: Minha linha de baixo preferida do Mike Hogan. Apesar de ser bem simples, eu viajo. Na verdade, eu piro muito em tudo que o Mike Hogan toca, enfim... e tem mais dor de cotovelo: "You wouldn't have done the things you did then and we could've been happy/Você não teria feito as coisas que você fez e nós poderíamos ter sido felizes". Já deve ter ficado claro que eu curto a temática, né?

Faixa 09 - Ridiculous Thoughts:  A introdução engana e a gente pensa que a música é muito mais lenta do que é. Amo os arranjos dedilhados do Noel, apesar de achar que tem muito da Dolores nisso. E ela xinga e diz que tá legal. Dizem que a letra foi composta pelos dois por conta de problemas que eles estavam tendo com a imprensa britânica. Eu gosto muito dessa música, com uma pegada mais "roqueira" que as outras. Me faz lembrar do primeiro disco.


Faixa 10 - Dreaming My Dreams:  A canção de amor mais canção de amor de todas. Tão fofa, tão menininha: "It's out there. If you want me I'll be here. I'll be dreaming my dreams with you/Estou distante. Se você me quiser eu estarei aqui. Eu sonharei meus sonhos com você". É de marejar os olhos, vai... acho linda. E tem violino e tal... eu também sou fofa, gente!


Faixa 11 - Yeat's Grave: Uma homenagem da banda ao poeta irlandês William Yeats (uma grande influência para Oscar Wilde e, consequentemente, para o Morrissey, só pra registrar). E é uma ótima canção. Mesmo.


Faixa 12 - Daffodil Lament:  É uma música das mais intensas. Com uns efeitos eletrônicos e uma bateria bem da sinistra. E quando ela canta: "I can't sleep here" eu tenho vontade de sair correndo e gritando por aí, louca. É incrível como eles conseguem transitar entre o fofo e o agressivo, entre o poético e o crítico, entre o melódico e o pesado.


Faixa 13 - No Need To Argue: É praticamente um mantra. E as técnicas e características vocais da Dolores são evidenciadas aqui. E a letra: "And the thing that makes me mad is the one thing that I had, I knew, I knew I'd lose you. You'll always be special to me and I remember all the things we once shared/E a coisa que me deixa irritada é a unica coisa que eu tenho, eu sabia, eu sabia que te perderia. Você sempre será especial para mim e eu me lembro de todas as coisas que compartilhamos uma vez" me deixa sentimental. E o final,onde a voz se multiplica e um lindo órgão investe na tensão: "There's no need to argue you, no need to argue anymore/Não há nada o que discutir contigo, não há mais nada o que discutir". Uma maneira incrível de se finalizar o disco. Lindo.




Definitivamente, The Cranberries é uma banda que eu admiro muito. E me arrependo muito de não ter ido a nenhum dos shows deles que eu poderia ter ido. Espero muito que eles voltem e eu possa estar lá, porque sentir essas vibrações ao vivo deve ser uma experiência mágica.
Amo a maneira de compôr e de cantar da Dolores, amo as linhas de guitarra e baixo dos irmãos Hogan, que se intercalam e completam lindamente, amo a maneira sensível do Lawlel dar movimento às melodias e amo todas as sensações que eu tenho ao parar pra ouvir cada um dos discos deles, do primeiro ao último. E eu realmente sinto um pouco de pena de quem não consegue compartilhar dessas emoções.







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